Em 22 de julho de 1979, o Iraque assistiu a um dos momentos mais dramáticos e sombrios de sua história recente. Apenas alguns dias após assumir oficialmente a presidência, Saddam Hussein orquestrou um expurgo político que ficaria marcado como um dos mais cruéis — e teatrais — da história do Oriente Médio.
O Contexto: Ascensão de Saddam

Durante os anos 1970, Saddam Hussein já era o homem forte do partido Baath, exercendo enorme influência nos bastidores enquanto Ahmed Hassan al-Bakr ocupava a presidência. Mas a saúde debilitada de al-Bakr e a habilidade de Saddam em manipular alianças internas abriram caminho para sua ascensão.
Em 16 de julho de 1979, Saddam forçou a renúncia de al-Bakr e assumiu oficialmente o cargo de presidente, primeiro-ministro e comandante supremo das forças armadas. Poucos dias depois, ele mostraria ao Iraque — e ao mundo — qual seria o preço de desafiá-lo.
O Dia do Expurgo
O evento aconteceu no Salão de Conferências do Conselho de Comando Revolucionário. Saddam convocou cerca de 400 líderes do partido para uma reunião urgente. As câmeras de TV estatais estavam posicionadas, mas ninguém sabia exatamente o motivo do encontro.
No palco, Saddam fez um discurso carregado de emoção e teatralidade. Ele anunciou que havia descoberto uma conspiração dentro do próprio partido, supostamente apoiada pela Síria, para derrubá-lo. Em seguida, ordenou que um funcionário começasse a ler uma lista de nomes de traidores.
Um a um, os acusados eram retirados da sala, sob o olhar apavorado de seus colegas. O clima era de puro terror: ninguém sabia se seu nome seria chamado. Alguns tentavam disfarçar o pânico, outros choravam ou tremiam. Ao final, dezenas foram presos imediatamente. A maioria seria executada nos dias seguintes.
A Transmissão e o Efeito Psicológico
O mais impressionante é que todo o episódio foi gravado e transmitido posteriormente pela TV iraquiana. O objetivo era claro: criar um espetáculo de intimidação, não apenas para o povo, mas principalmente para o círculo interno do poder. Saddam queria que todos soubessem que lealdade absoluta era a única garantia de sobrevivência.

O expurgo foi tão bem calculado que alguns sobreviventes foram obrigados a participar da execução de seus próprios colegas, selando um pacto de sangue que os comprometia com o regime.
Consequências

O expurgo consolidou Saddam Hussein como líder incontestável do Iraque. A partir dali, qualquer oposição interna foi esmagada com rapidez. O medo se tornou uma ferramenta de governo, e o partido Baath passou a girar em torno de uma figura única: Saddam.
Anos depois, estudiosos e historiadores analisariam o episódio como um exemplo clássico de governança pelo terror, algo comparável aos expurgos stalinistas na União Soviética. Para muitos iraquianos, aquele 22 de julho foi o verdadeiro início da era Saddam.